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Retrado de Charles Ricou

A 8 de Fevereiro de 1906 foi assinada a escritura do trespasse paraa Société Electrique d’Extrême-Orient, com sede na Indochina, da concessão anteriormente feita a Marius Bert. A empresa passou a ser representada em Macau por Lucien Balliste. Em 1909 foi efectivado o trespasse da concessão da mesma sociedade para o cidadão francês Charles Ricou, ficando este obrigado a constituir uma nova sociedade. O compromisso foi levado à prática no dia 6 de Junho de 1910, no n.º 10 da Queen’s Road, Hong Kong, onde se realizou a primeira reunião do Conselho de Administração de uma sociedade por acções de nome «The Macao Electric Lighting C.e Ltd», que passou a ser conhecida pela abreviatura MELCO.

Os primeiros 12 anos de funcionamento da MELCO foram um período de muitas peripécias, gravitando a maior parte em torno da personalidade ímpar do gerente geral e fundador da MELCO, o francês Charles Ricou. Este foi de facto o verdadeiro responsável pela introdução da iluminação a energia eléctrica em Macau. Mas não só. Foi também ele que criou a primeira companhia aérea de Macau (a Macao Aerial Transport), esteve envolvido em empresas de gelo e refrigeração, e tentou por diversas vezes ficar com o exclusivo do abastecimento de água à cidade.

Atribuição do Contrato de fornecimento de energia eléctrica a Charles Ricou (1909) Poste de iluminação pública localizado junto à casa de verão do Governador, no Bairro da Flora, em 1915 Postes de iluminação pública localizados em frente ao edifíco do Tribunal, na Rua da Praia Grande, em 1920


 

Anúncio de Jornal da MELCO

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Ricou acabou por deixar o território em 1922 e, em Julho de 1924, doou à sua pátria todo o equipamento aeronáutico da sua aventura da costa Sul da China. Após a partida de Charles Ricou, a MELCO passou a ser dirigida pelo seu número dois, o inglês Frederick Johnson Gellion. Em fase de desanuviamento nas relações mútuas, a MELCO e o Leal Senado fizeram formalmente as pazes em 1923, celebrando um acordo «no sincero desejo de pôr fim a discussões estéreis e absolutamente inúteis».
Os anos que se seguiram até à Segunda Guerra Mundial foram tempos de expansão pacífica para a MELCO. A figura pioneira, mas conflituosa, de Ricou dava lugar ao seu consensual braço-direito. Num notável exercício de relações públicas a MELCO esforçava-se por se insinuar no quotidiano da população, aproximando-se o mais possível das suas necessidades práticas, sob o famoso lema «a MELCO ao seu dispor». Foi assim que se foram integrando no quotidiano de Macau os novos símbolos da vida moderna: o ferro eléctrico, a ventoinha eléctrica, a cafeteira, a chaleira, o aquecedor, o irradiador, todos eléctricos. Também nessa época a electricidade começava a contribuir para o característico colorido das ruas da cidade durante a noite, sobretudo nas zonas comerciais, e a própria MELCO recomendava: «para auxiliar as vossas vendas precisais de ter as montras convenientemente iluminadas».

Não só as montras. Em princípios de 1928, a imprensa fazia referência à instalação de mais um anúncio luminoso, um «anúncio gigantesco» que acabava de ser montado pela MELCO para a British American Tobacco Company, na Rua do Campo. 

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Com uma boa imagem pública, a MELCO continuou a cultivar, durante muito tempo, a sua filosofia de sucesso. O mesmo optimismo caracterizava ainda a propaganda da MELCO mais de dez anos depois, quando a Guerra do Pacífico já estava à porta. «Sobe o preço do carvão; a lenha está caríssima; não menos caro está o petróleo, porém reparai que é invariável o preço por que pagais a energia eléctrica» dizia um anúncio publicado em Janeiro de 1941. Um optimismo que não poderia durar muito tempo.

Nos primeiros anos da II Guerra mundial, Macau vivia não só em paz mas também numa fase de relativa prosperidade, devido à posição neutral assumida por Portugal perante o conflito. Descrições feitas por quem viveu em Macau nessa época referem que «lâmpadas eléctricas iluminavam profundamente os recortes graciosos do monte e das baías» e que a Avenida Almeida Ribeiro, a zona comercial por excelência de Macau, oferecia uma profusão de luzes, mostrando que a sugestão de Gellion tinha sido levada em conta pelos comerciantes.


 

Na madrugada do dia 8 de Dezembro de 1941, Hong Kong foi invadido pelas tropas japonesas, trazendo assim a guerra para mais perto de Macau. Apesar da postura neutral do território português, os japoneses passaram a controlar as entradas e saídas de barcos, criando assim graves problemas de abastecimento de produtos essenciais, entre os quais o carvão, indispensável para a produção de energia eléctrica.

Cerca de um mês após a entrada dos japoneses em Hong Kong, o administrador do concelho de Macau anunciou diversas medidas restritivas do consumo de electricidade, incluindo a eliminação das luzes néons e, de uma maneira geral, toda a iluminação decorativa. Ficava também proibido o uso de aquecedores, ventoinhas e sistemas de refrigeração (ar condicionado), excepto nos hospitais. Além disso, só haveria energia eléctrica entre as 10 e as 15 horas e das 19 até ao amanhecer.

O Leal Senado acabou por chamar a si o abastecimento de energia eléctrica, criando posteriormente os Serviços Autónomos de Electricidade do Leal Senado. A guerra prolongar-se-ia ainda, por cerca de dois anos e, antes de terminar, voltou a bater à porta da concessionária da electricidade. Com efeito, no dia 16 de Janeiro de 1945, caças da terceira esquadra naval americana, em operação no Pacífico, bombardearam vários pontos da cidade de Macau. A Central da MELCO foi um deles, como que prenunciando um período menos brilhante para a história da empresa.


 

Ficha de trabalho e de salário de um funcionário da MELCO (de 1935 a 1943)

No final da guerra, a concessão voltou para a MELCO (em Novembro de 1945), num momento em que a introdução da iluminação por energia eléctrica contava com quatro décadas de existência. Por alturas de 1951, já havia inúmeras indústrias servidas pela electricidade, e a produção mensal da central geradora da MELCO era de cerca de um milhão de kW, as máquinas tinham uma potência de 4295 kW e o número de consumidores ascendia a 15 mil. Nessa altura, a MELCO tinha cerca de 350 trabalhadores, número que dava razão de ser à existência do famoso Clube Melco que, durante décadas, foi um dos mais importantes centros de convívio e entretenimento em Macau. Há que referir, também, a existência, desde 1946, da Associação dos Empregados da CEM e da SAAM, agrupando trabalhadores das concessionárias da electricidade e da água. Presentemente, esta associação mantém-se bastante activa.

Mas, apesar de toda esta pujança, o certo é que a guerra tinha deixado marcas profundas na economia local e, por outro lado, os equipamentos utilizados pela concessionária acusavam a usura dos anos e alguma desactualização, num século de evolução tecnológica acelerada. Mesmo assim, talvez com a conivência de um fraco controlo municipal, a MELCO continuou a registar lucros que, no ano de 1951, ascenderam a um milhão de patacas. Paralelamente, em diversas ocasiões, vozes se levantaram contra a política da companhia, que se recusava a fazer a necessária actualização tecnológica. Uma dessas vozes foi a do Governador Lopes dos Santos que, em 1962, no contexto de mais uma crise com a MELCO, assim resumia a situação: «uma central obsoleta, elevado regime de perdas na rede e um sistema tarifário que não se coaduna com os interesses públicos».

Grupo de trabalhadores da MELCO Bilhete de identidade de um funcionário de leitura de contadores da MELCO (1946)

 

No dia 31 de Julho de 1966 expirava o contrato de concessão do exclusivo de fornecimento de energia eléctrica à cidade de Macau, outorgado à The Macao Electric Lighting Company Limited. Este prazo resultava do contrato de prorrogação, assinado em 1932, que prolongava por mais trinta anos a concessão inicialmente feita a Marius Bert e depois transferida para Charles Ricou. Atendendo à deficiência dos serviços prestados pela concessionária, e também ao mau relacionamento entre a empresa e o Leal Senado, decidiu-se lançar um concurso internacional para o exclusivo do fornecimento de energia eléctrica. Muitos esperavam, com essa medida, afastar a MELCO. Mas a estratégia saiu gorada. A única empresa a apresentar-se a concurso foi a própria MELCO. A escritura do novo contrato de concessão com a MELCO tem a data de 15 de Janeiro de 1968, mas ele entrou formalmente em vigor a partir de 1 de Agosto de 1966 para não quebrar a continuidade do contrato anterior, que expirou a 31 de Julho de 1966. Por outro lado, o novo contrato teria a validade de 24 anos, expirando a 31 de Julho de 1990.

Paralelamente, Macau viveu, em Dezembro de 1966, um período de grande agitação social (os acontecimentos do «1,2,3») que criaram um ambiente de incerteza e uma crise de confiança em Macau pouco favorável aos negócios. Por exemplo, os fornecedores de combustível à MELCO passaram a querer o pagamento a pronto. De tal modo que, a partir de certa altura, a própria concessionária passou a invocar a existência dessas dificuldades para afirmar que não tinha condições para cumprir o novo contrato de concessão até ao fim do seu prazo de 24 anos. Em 1968, as autoridades foram advertidas de que dentro de dois anos Macau ficaria sem luz eléctrica, visto a MELCO não ter possibilidade de acompanhar o progresso da cidade: em 1969 a empresa estava incapacitada de atender os pedidos de novos consumidores.

Perante este estado de coisas foi constituído em 1970, no âmbito do Ministério do Ultramar, um grupo de trabalho para analisar a situação da electricidade em Macau, tendo-se deslocado para o efeito ao Território um inspector superior daquele Ministério, Manuel Vidigal. O resultado desse estudo ficou condensado num relatório de 50 páginas dactilografadas, em que se constata estar Macau «a viver um período de expansão impressionante», uma expansão estrangulada pela carência de energia eléctrica.

 

 

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