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1904-1972

Retrado de Charles Ricou

No que diz respeito à iluminação por energia eléctrica em Macau quem aparentemente ganhou a competição – em termos de países - foi a França, já que foram súbditos seus, ligados à Indochina, que ficaram com o monopólio de exploração daquele serviço. O primeiro contrato de fornecimento de energia eléctrica a Macau foi assinado, como já se referiu, entre o Leal Senado e o cidadão Francês Marius Bert, engenheiro, residente em Haiphong, na Indochina. Nos termos do contrato, a concessão seria válida por 30 anos, sendo o concessionário responsável pelo fornecimento de energia eléctrica para iluminação pública e particular, abrangendo nisso toda a península, mas não as ilhas da Taipa e Coloane, que não estavam incluídas. O contrato permitia ainda ao concessionário que adaptasse ao uso da electricidade os lampiões de ferro fundido que estavam a ser utilizados na iluminação a petróleo. O documento fazia referência à existência nas vias públicas de 400 lâmpadas incandescentes de 16 velas e 30 de arco voltaico, estas mais potentes, de 600 velas.

A 8 de Fevereiro de 1906 foi assinada a escritura do trespasse para a Société Electrique d’Extrême-Orient, com sede na Indochina, da concessão anteriormente feita a Marius Bert. A empresa passou a ser representada em Macau por Lucien Balliste. Em 1909 foi efectivado o trespasse da concessão da mesma sociedade para o cidadão Francês Charles Ricou, ficando este obrigado a constituir uma nova sociedade. O compromisso foi levado à prática no dia 6 de Junho de 1910, no n.º 10 da Queen’s Road, Hong Kong, onde se realizou a primeira reunião do Conselho de Administração de uma sociedade por acções de nome «The Macao Electric Lighting Co. & Ltd», que passou a ser conhecida pela abreviatura MELCO.

Atribuição do Contrato de fornecimento de energia eléctrica a Charles Ricou (1909) Poste de iluminação pública localizado junto à casa de verão do Governador, no Bairro da Flora, em 1915 Postes de iluminação pública localizados em frente ao edifíco do Tribunal, na Rua da Praia Grande, em 1920

Os primeiros doze anos de funcionamento da MELCO foram um período de muitas peripécias, gravitando a maior parte em torno da personalidade ímpar do gerente geral e fundador da MELCO, o Francês Charles Ricou. Este foi de facto o verdadeiro responsável pela introdução da iluminação a energia eléctrica em Macau. Mas não só. Foi também ele que criou a primeira companhia aérea de Macau (Macau Aerial Transport), esteve envolvido em empresas de gelo e refrigeração e tentou por diversas vezes ficar com o exclusivo do abastecimento de água à cidade.

Em Julho de 1910, o Conde de Senna Fernandes, com assento no Leal Senado, protestava perante a Câmara por ter sido cortada a electricidade ao seu palacete do Tap Siac, um dos mais importantes centros da vida social nocturna da sociedade Macaense daquele tempo. E fez notar o desplante de Ricou se dirigir à multissecular Instituição Portuguesa do Oriente em língua francesa.

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Charles Ricou, que se sentia bastante à vontade em situações de conflito, não se deixou perturbar e respondeu que se o Sr. Conde queria energia eléctrica era bastante simples pois ficaria «tudo regulado uma vez que o Exmo. Sr. Conde de Senna Fernandes assine a apólice aprovada pela Exma. Câmara». Este é apenas um dos episódios de uma longa série que se prolongou por mais de uma década.

Por alturas da Primeira Guerra Mundial o ambiente de fricção entre o concessionário da electricidade e a comunidade Portuguesa local amainou, entre outras razões, porque, homem de coragem, Charles Ricou logo se ofereceu como voluntário para defender a sua pátria, a França, participando na guerra como aviador. Ricou sobreviveu a um acidente de avião durante a guerra.

Com o seu regresso, são e salvo, à actividade em Macau, igualmente se retomaram as velhas polémicas, com novos intervenientes. Nomeadamente Rodrigo Marin Chaves, que a dado momento fundou uma publicação, «O Eco do Povo», cujo único e confesso propósito era atacar Charles Ricou, as suas empresas e os seus amigos.

Nos anos que se seguiram, Charles Ricou foi acusado das mais variadas tropelias. Por exemplo, de se exibir pelas ruas de Macau fardado de sargento do exército e de oficial da Marinha Portuguesa, de usar a matrícula n.º 106 no seu automóvel, numa altura em que apenas havia 30 automóveis em Macau, e de um (entre outros) acidente de viação, em que atropelou um jovem Chinês mas, de acordo com um jornal de língua portuguesa, «o Sr. Ricou não se atrapalhou, o que se compreende, por estar já habituado a passar por cima de tudo». Foi inclusivamente acusado de se disfarçar de «fantasma» num cemitério, para assustar as pessoas…

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Um outro incidente da época, opôs Charles Ricou e um Português de nome Carlos Cabral, a propósito do fornecimento de energia eléctrica à residência deste. Como Carlos Cabral não se conformava com as exigências da companhia concessionária, decidiu comprar um motor Delco para produção de energia eléctrica para a sua residência, sem ter de recorrer aos serviços da MELCO.

Mais tarde, seria o próprio Leal Senado a considerar a possibilidade de adquirir um motor Delco, na sequência de uma decisão de Charles Ricou de deixar de fornecer energia eléctrica aos edifícios municipais. Charles Ricou também cortou o fornecimento de electricidade às instalações do jornal «O Liberal», devido à campanha deste contra a concessionária, pelo que o director do jornal também optou pela compra de motores Delco.

Esta propensão para utilizar o corte do fornecimento de energia eléctrica às instalações dos seus adversários como uma forma de pressão e de retaliação, valeu a Charles Ricou a alcunha de «Corta-Corrente».

Enquanto se desenrolavam estas peripécias, tudo indica que a MELCO se ia tornando um projecto empresarial viável. Cerca do ano 1920, o Presidente do Leal Senado acusava a MELCO, numa sessão da Câmara, de ser «uma companhia que, à custa de Macau, se transformou, pelo menos aparentemente, num colosso (financeiramente falando)».

Mas o conflito decisivo para o destino de Charles Ricou em Macau teve provavelmente mais a ver com a sua Companhia Aérea, a MAT, do que com a MELCO. Em 1921, depois de falhada a tentativa de fazer voos para Hong Kong, Ricou tentava assegurar rotas para a China, o que provocou uma forte oposição por parte das autoridades Portuguesas, que o ameaçaram de expulsão de Macau. Ricou acabou por deixar o território em 1922 e, em Julho de 1924, doou à sua pátria todo o equipamento aeronáutico da sua aventura da costa Sul da China.

Após a partida de Charles Ricou, a MELCO passou a ser dirigida pelo seu número dois, o Inglês Frederick Johnson Gellion. Em fase de desanuviamento nas relações mútuas, a MELCO e o Leal Senado fizeram formalmente as pazes em 1923, celebrando um acordo «no sincero desejo de pôr fim a discussões estéreis e absolutamente inúteis».

Os anos que se seguiram até à Segunda Guerra Mundial foram tempos de expansão pacífica para a MELCO. A figura pioneira mas conflituosa de Ricou dava lugar ao seu consensual braço-direito. Num notável exercício de relações públicas a MELCO esforçava-se por se insinuar no quotidiano da população, aproximando-se o mais possível das suas necessidades práticas, sob o famoso lema «a MELCO ao seu dispor». Foi assim que se foram integrando no quotidiano de Macau os novos símbolos da vida moderna: o ferro eléctrico, a ventoinha eléctrica, a cafeteira, a chaleira, o aquecedor, o irradiador, todos eléctricos.

Também nessa época a electricidade começava a contribuir para o característico colorido das ruas da cidade durante a noite, sobretudo nas zonas comerciais, e a própria MELCO recomendava: «para auxiliar as vossas vendas precisais de ter as montras convenientemente iluminadas».

Ficha de trabalho e de salário de um funcionário da MELCO (de 1935 a 1943)

Não só as montras. Em princípios de 1928, a imprensa fazia referência à instalação de mais um anúncio luminoso, um «anúncio gigantesco» que acabava de ser montado pela MELCO para a British American Tobacco Company, na Rua do Campo.

Com uma boa imagem pública, a MELCO continuou a cultivar, durante muito tempo, a sua filosofia de sucesso. O mesmo optimismo caracterizava ainda a propaganda da MELCO mais de dez anos depois, quando a Guerra do Pacífico já estava à porta. «Sobe o preço do carvão; a lenha está caríssima; não menos caro está o petróleo, porém reparai que é invariável o preço por que pagais a energia eléctrica» dizia um anúncio publicado em Janeiro de 1941. Um optimismo que não poderia durar muito tempo.

Nos primeiros anos da II Guerra Mundial, Macau vivia não só em paz mas também numa fase de relativa prosperidade, devido à posição neutral assumida por Portugal perante o conflito. Descrições feitas por quem viveu em Macau nessa época referem que «lâmpadas eléctricas iluminavam profundamente os recortes graciosos do monte e das baías» e que a Avenida Almeida Ribeiro, a zona comercial por excelência de Macau, oferecia uma profusão de luzes, mostrando que a sugestão de Gellion tinha sido levada em conta pelos comerciantes.

Na madrugada do dia 8 de Dezembro de 1941, Hong Kong foi invadido pelas tropas Japonesas, trazendo assim a guerra para mais perto de Macau. Apesar da postura neutral do território Português, os Japoneses passaram a controlar as entradas e saídas de barcos, criando assim graves problemas de abastecimento de produtos essenciais, entre os quais o carvão, indispensável para a produção de energia eléctrica.

Cerca de um mês após a entrada dos Japoneses em Hong Kong, o Administrador do Concelho de Macau anunciou diversas medidas restritivas do consumo de electricidade, incluindo a eliminação das luzes neons e, de uma maneira geral, toda a iluminação decorativa. Ficava também proibido o uso de aquecedores, ventoinhas e sistemas de refrigeração (ar condicionado), excepto nos hospitais. Além disso, só haveria energia eléctrica entre as 10 e as 15 horas e das 19 até ao amanhecer.

O Leal Senado acabou por chamar a si o abastecimento de energia eléctrica, criando posteriormente os Serviços Autónomos de Electricidade do Leal Senado. A guerra prolongar-se-ia ainda por cerca de dois anos e, antes de terminar, voltou a bater à porta da concessionária da electricidade. Com efeito, no dia 16 de Janeiro de 1945, caças da terceira esquadra naval Americana, em operação no Pacífico, bombardearam vários pontos da cidade de Macau. A Central da MELCO foi um deles, como que prenunciando um período menos brilhante para a história da empresa. No final da guerra a concessão voltou para a MELCO (em Novembro de 1945), num momento em que a introdução da iluminação por energia eléctrica contava com quatro décadas de existência.

Por alturas de 1951 já havia inúmeras indústrias servidas pela electricidade e a produção mensal da central geradora da MELCO era de cerca de um milhão de kW, as máquinas tinham uma potência de 4295 kW e o número de clientes ascendia a quinze mil. Nessa altura a MELCO tinha cerca de 350 trabalhadores, número que dava razão de ser à existência do famoso Clube MELCO que, durante décadas, foi um dos mais importantes centros de convívio e entretenimento em Macau. Há que referir também a existência, desde 1946, da Associação dos Trabalhadores da CEM e da SAAM, agrupando trabalhadores das concessionárias da electricidade e da água. Presentemente, esta associação mantém-se bastante activa.

Mas, apesar de toda esta pujança, o certo é que a guerra tinha deixado marcas profundas na economia local e, por outro lado, os equipamentos utilizados pela concessionária acusavam a usura dos anos e alguma desactualização, num século de evolução tecnológica acelerada. Mesmo assim, talvez com a conivência de um fraco controlo municipal, a MELCO continuou a registar lucros que, no ano de 1951, ascenderam a um milhão de patacas.

Paralelamente, em diversas ocasiões, vozes se levantaram contra a política da companhia, que se recusava a fazer a necessária actualização tecnológica. Uma dessas vozes foi a do Governador Lopes dos Santos que, em 1962, no contexto de mais uma crise com a MELCO, assim resumia a situação: «uma central obsoleta, elevado regime de perdas na rede (…) e um sistema tarifário que não se coaduna com os interesses públicos».

No dia 31 de Julho de 1966 expirava o contrato de concessão do exclusivo de fornecimento de energia eléctrica à cidade de Macau, outorgado à The Macao Electric Lighting Company Limited. Este prazo resultava do contrato de prorrogação, assinado em 1932, que prolongava por mais trinta anos a concessão inicialmente feita a Marius Bert e depois transferida para Charles Ricou. Atendendo à deficiência dos serviços prestados pela concessionária, e também ao mau relacionamento entre a empresa e o Leal Senado, decidiu-se lançar um concurso internacional para o exclusivo do fornecimento de energia eléctrica. Muitos esperavam, com essa medida, afastar a MELCO. Mas a estratégia saiu gorada. A única empresa a apresentar-se a concurso foi a própria MELCO.

A escritura do novo contrato de concessão com a MELCO tem a data de 15 de Janeiro de 1968, mas ele entrou formalmente em vigor a partir de 1 de Agosto de 1966 para não quebrar a continuidade do contrato anterior, que expirou a 31 de Julho de 1966. Por outro lado, o novo contrato teria a validade de 24 anos, expirando a 31 de Julho de 1990.

Paralelamente, Macau viveu, em Dezembro de 1966, um período de grande agitação social (os acontecimentos do «1,2,3») que criaram um ambiente de incerteza e uma crise de confiança em Macau pouco favorável aos negócios. Por exemplo, os fornecedores de combustível à MELCO passaram a querer o pagamento a pronto. De tal modo que, a partir de certa altura, a própria concessionária passou a invocar a existência dessas dificuldades para afirmar que não tinha condições para cumprir o novo contrato de concessão até ao fim do seu prazo de 24 anos. Em 1968, as autoridades foram advertidas de que dentro de dois anos Macau ficaria sem energia eléctrica, visto a MELCO não ter possibilidade de acompanhar o progresso da cidade: em 1969 a empresa estava incapacitada de atender os pedidos de novos clientes.

Perante este estado de coisas foi constituído em 1970, no âmbito do Ministério do Ultramar, um grupo de trabalho para analisar a situação da electricidade em Macau, tendo-se deslocado para o efeito ao território um inspector superior daquele Ministério, Manuel Vidigal. O resultado desse estudo ficou condensado num relatório de 50 páginas dactilografadas, em que se constata estar Macau «a viver um período de expansão impressionante», uma expansão estrangulada pela carência de energia eléctrica.

Ao descrever a situação em que se encontrava a MELCO o autor refere que, em 1970, o conjunto das máquinas geradoras da central, em regime de plena carga, cobria apenas cerca de dois terços das necessidades normais de consumo. Consequentemente, «o grande Hotel-Casino Lisboa era obrigado a prover ao seu próprio auto-abastecimento de energia (tinha a funcionar um grupo gerador de 2000 CV e outro encomendado) e estava impossibilitado de abrir mais quartos por carência de electricidade; as fábricas, impedidas de trabalhar em regime normal, tinham de resignar-se a laborar apenas com parte do equipamento, às horas em que a tensão melhorava, arriscando constantemente a integridade desse equipamento porque era impossível obter um nível de voltagem aceitável; os ascensores dos hotéis e dos prédios altos não subiam; os prédios novos não eram arrendados porque a MELCO deixou de os ligar à rede; as telecomunicações dos CTT e a aparelhagem hospitalar sofriam graves perturbações; o ar condicionado dos escritórios e das casas particulares funcionava com mau rendimento e sofria avarias frequentes, causando a deterioração do material; os tubos fluorescentes não acendiam e as lâmpadas incandescentes só davam luz mortiça; as donas de casa só à custa de muita persistência conseguiam alguma utilização da aparelhagem eléctrica doméstica». Enfim, uma situação que o engenheiro considerava «caótica».

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